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Desde: 04/11/2003      Publicadas: 70      Atualização: 20/05/2019

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 crítica literária

  28/03/2005
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PASTA BRASILEIRA

Reúne ensaios sobre escritores brasileiros
Palavras-chaves: Metapoemas - Drummond - Machado de Assis - Memórias Póstumas - Euclides da Cunha - Os Sertões.

PASTA BRASILEIRAO Metapoema em Drummond

O texto analisa os processos metapoemáticos da obra do poeta Carlos Drummond de Andrade.
O METAPOEMA EM DRUMMOND


Charles Odevan Xavier





A obra poética de Carlos Drummond de Andrade é um verdadeiro manancial onde se pode abordar o social, a memória, o sensual, a infância, o patriarcalismo mineiro, a submissão feminina...Neste artigo, resumo de um trabalho maior, o tema escolhido foi a metatextualidade, ou melhor dizendo: o metapoema em Drummond.





A metatextualidade, genericamente chamada de metalinguagem, é a mensagem centrada no código (definição de Samira Chalub no seu Funções da Linguagem). Desse modo, seguindo o raciocínio de Chalub, o metapoema é um poema que fala do ato criativo, da dificuldade de seu material " a palavra -, do conflito pedregoso diante da folha branca como "uma pedra no meio do caminho", da palavra que é de uso de todas e que, no poema, necessita ser singular e exata para bem dizer-se.





Drummond revela uma forte preocupação metatextual em sua poesia, embora sem se igualar nisso, quantitativamente, a um João Cabral de Melo Neto.





Em "Mãos Dadas", Drummond diz: "Não serei o poeta de um mundo caduco/ também não contarei o mundo futuro.". Isto é, o poeta não é arcaísta nem invencionista. E prossegue: "Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem da janela/ Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas.". O poeta afirma que não há espaço para o lirismo contemplativo, o escapismo romântico ou o pessimismo decadentista em sua poesia.





Em "O lutador", o poeta é mais explícito: "Lutar com palavras/ é a luta mais vã./ Entanto lutamos/ mal rompe a manhã./ São muitas, eu pouco./ Algumas, tão fortes/ como um javali.". Mostrando que o trabalho poético é uma verdadeira e suada luta corpo-a-corpo com as palavras, noite a dentro, insone; e que as palavras são tão indomáveis e autônomas como animais selvagens. Aqui, Drummond contempla aquela famosa frase que diz que o processo criativo é 10% inspiração e 90% transpiração.








Já em "Canção Amiga", o poeta surpreende ao dizer: "Eu preparo uma canção/ em que minha mãe se reconheça/ todas as mães se reconheçam"; parece uma contradição para quem disse que não é o poeta de um mundo caduco ou que diz suspiros ao anoitecer, mas o poeta desfaz o problema: "Aprendi novas palavras/ e tornei outras mais belas" e conclui com um propósito nada modesto: "Eu preparo uma canção/ que faça acordar os homens/ e adormecer as crianças".





No "Poema-Orelha", adverte aos leitores: "Não me leias se buscas/ flamante novidade/ ou sopro de Camões". De uma certa forma, contempla o que disse em "Mãos dadas", sobre o fato de não ser e nem oferecer o "antigo" ou o "moderno"; e continua: "Aquilo que revelo/ e o mais que segue oculto/ em vítreos alçapões/ são notícias humanas". O que dizer do genial paradoxo: "vítreos alçapões"? Pois como um alçapão pode ter a transparência do vidro? Conclui-se que a verdadeira filiação de Drummond é com as coisas menores, sem extravagância ou pompa, com o cotidiano ou como ele diz em "Mãos Dadas" com "o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.".

A Metaenunciação em Machado de Assis

O texto analisa os procedimentos metaenunciativos do romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis
A METAENUNCIAÇÃO EM MACHADO DE ASSIS


Charles Odevan Xavier





Este artigo poderia começar com uma narração qualquer do tipo: "Certa vez na biblioteca do Sesc, um comerciário comentou a sua decisão de pegar um livro de Sidney Sheldon: "Eu gosto de Sidney Sheldon, porque ele vai direto ao ponto, não fica com aqueles rodeios de Machado de Assis".Tal narração serviria plenamente de ilustração a um artigo que pretende investigar as ocorrências metaenunciativas em Machado de Assis. Também poderia começar de outro maneira: "O presente estudo visa a investigar as ocorrências metaenunciativas na obra de Machado de Assis, particularmente, em Memórias Póstumas de Brás Cubas etc. etc. etc."


O leitor deve estar perguntando aonde quero chegar. Pretendo apenas ilustrar de forma prática do que se trata o fenômeno da metaenunciação em Machado de Assis.


Para entendê-la cabe esclarecer primeiro o que vem a ser "enunciação". A enunciação segundo a definição de José Luis Fiorin (Elementos de Análise do Discurso) trata-se de um "ato de produção do discurso, é uma instância pressuposta pelo enunciado (produto da enunciação). Ao realizar-se, ela deixa marcas no discurso que constrói". Ou dito de forma mais simples, a enunciação difere do enunciado. O enunciado é o que está escrito, enquanto a enunciação corresponde a intenção do falante ao dizer. Sendo assim, o enunciado é concreto e a enunciação é abstrata.


A metaenunciação, por sua vez, trata-se de uma forma particular de enunciação. Seria como se a enunciação voltasse sobre si mesma. Tal qual ao definir metalinguagem A.J. Greimas (Dicionário de Semiótica) esclarece que faz-se necessário distinguir a língua de que falamos da língua que falamos. Ou seja, basta observar o funcionamento das línguas naturais para se perceber que elas têm a particularidade de poder falar não somente das "coisas", mas também delas mesmas. Do mesmo modo, cabe distinguir no plano de uma trama romanesca, o que é enunciado e o que é metaenunciado. Ou melhor dizendo em se tratando de Machado de Assis, cabe distinguir quando ele narra uma história, de quando ele comenta o processo da narração.


MEMÓRIAS PÓSTUMAS


Escolhemos como corpus desta pesquisa a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, por ser ela uma das mais representativas sob o ponto de vista do objeto que escolhemos, a metaenunciação.


Memórias Póstumas inaugura a chamada fase realista, por alguns críticos, da obra Machadiana. Nela as ocorrências metaenunciativas configuram-se pela referência direta ao leitor, observações críticas sobre o texto, confronto de capítulos ou motivos através de constantes alusões, processo que Sonia Brayner denominou como o Narrador intruso em Labirinto do Espaço Romanesco.


Na primeira página da obra há uma espécie de nota para o leitor intitulada Ao Leitor em que Machado, ou melhor, Brás-Cubas, comenta irônico:


"Que Stendhall confessasse haver escrito um seus livros para cem leitores coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhall, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Stern, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio."


Que tipo de contrato é estabelecido entre Machado de Assis, ou seu pseudo-autor Brás Cubas, e o leitor? Machado de Assis insinua nestas linhas a filiação do seu romance ao realismo, a um realismo duro, stendhaliano, difícil de ler, escrito para poucos. Este é o contrato firmado entre Machado e o leitor. Ou seja, o romance que o leitor tem em mãos é uma obra pesada, amarga, melancólica, prolixa. E o autor se deu ao trabalho de advertir ao leitor de que tipo de compromisso haverá entre ele e o leitor, caso este queira ler a obra. Entretanto, o pseudo-autor Brás-Cubas não superestima o seu trabalho como se infere de um texto em que há referência a Stendhall, Sterne, entre outros:





"Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião".





Ou seja, Brás Cubas prevê que sua obra passe por mais um romance banal que desagradaria o leitor culto, sem, contudo, conseguir agradar o leitor mediano. E prossegue:





"Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.


Brás Cubas".


Neste prólogo, Machado já antecipa as preocupações metaenunciativas presentes na obra, a despeito de prometer não faze-lo e o faz constantemente ao longo da obra traindo o contrato com o leitor.


O LEITOR


A metaenunciação já começa no primeiro capítulo (O óbito do autor) em que Machado discute a confecção da obra:





"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte". (pág. 5)





Só no segundo parágrafo, depois de definir ao leitor que se trata de um defunto autor e daí a razão de ter escolhido a morte como começo da diegese, é que realmente a trama começa. E daí para a frente a narrativa será contada desta forma, com constantes interrupções em que o autor critica o próprio texto, quebrando a ilusão ficcional. Ou seja, de quando em quando, o leitor será desviado de um percurso narrativo convencional e entrará em um percurso temático, o qual o autor utiliza para vários fins: criticar o texto, confrontar capítulos, conversar com o leitor, enfim, toda uma gama de artifícios discursivos que tornam Memórias Póstumas o terror dos alunos da 8 série e um enfado para aquele comerciário do Sesc lá do começo do artigo.


Vejamos como Machado se utiliza da metaenunciação. No final do capítulo 1, Brás Cubas diz:


"Morri de uma pneumonia, mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo". (pág.06)





Aqui Machado aponta claramente a existência de um enunciatário do texto: o leitor. Por isso, Machado oscila entre o referencial (informar algo) e o fático (testar o canal da comunicação) como se depreende do trabalho de Samira Chalub (Funções da Linguagem).


O papel do leitor na obra de Machado é crucial como revelou Matoso Câmara em seu Ensaios Machadianos. O leitor é constantemente solicitado por Machado:


"Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto" Cap.III


ou:


"Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho" Cap.IV





Assim, o texto machadiano pressupõe um leitor machadiano, isto é, um leitor ativo, experiente que tenha um rico patrimônio cultural, um largo background, pois o texto de Machado é composto por constantes alusões ao mundo literário e científico. Por isso, num mesmo capítulo podem aparecer os nomes de Virgílio, Homero, Shakespeare, Camões, Dante, assim como, referências a episódios históricos, diversas mitologias, passagens da bíblia, enfim, toda uma farta erudição ou um denso beletrismo.


A CRÍTICA AO TEXTO


Machado, através do pseudo-autor Brás-Cubas, critica o próprio texto em diversas passagens da obra:


"Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio que prefere a anedota à reflexão, como os leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem." Cap.IV





Ou seja, Machado reconhece os circunlóquios e as digressões da obra, porém ele se justifica:


"Todavia, importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado". Cap.IV





Em outras palavras, as Memórias do defunto autor fica em algum lugar entre a gravidade e a frivolidade, como se é de esperar de alguém que assiste a miséria humana do camarote cômodo da eternidade.


O CO-AUTOR


O caráter auto-crítico do texto revela um acento moderno: a interatividade.


"Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais pode saltar o capítulo; vá direto à narração". Cap. VII





Deste modo, Machado estabelece um contrato de co-autoria com o leitor. Isto é, a obra é feita por dois autores: Machado de Assis e o leitor, antecipando o que a Lingüística Textual e a Teoria da Informação diriam na década de 60 do século XX sobre a ativação de esquemas no processamento do texto.


A GÊNESE DO ESTILO MACHADIANO


O leitor do artigo deve perguntar por que o estilo de Machado de Assis faz-se dessa maneira tão inovadora e utilizando-se de recursos discursivos tão peculiares.


Sonia Brayner acredita que foi a experiência com a crônica jornalística que forneceu o desembaraço preparatório para as experiências de um novo enunciado romanesco. Machado escreveu crônicas durante quarenta anos para os jornais Diário do Rio de Janeiro,


Semana Ilustrada, O Futuro e finalmente a partir de 1881 até 1900 na famosa Gazeta de Notícias.


A crônica brasileira do século XIX, dedicada ao comentário, ao entretenimento do cotidiano da cidade e do País, aos poucos substituiu o romance de aventuras, o folhetim romântico, criando uma nova sensibilidade e um novo público leitor.


È nesse convívio diário com este tipo de texto que Machado desenvolveu o seu texto dialógico e o seu humor à inglesa. Também pode-se notar a influência de humoristas como Montesquieu, Voltaire, Rabelais, Cervantes, Diderot.


Daí a opção em Memórias Póstumas pelo abandono da narrativa cronológica, linear, desvalorizando a intriga e o chocando o público habitual do romance brasileiro. Agora vai interessar menos as ações pouco significantes do enfadado Brás Cubas e muito mais um pensamento sobre os seres e sobre a vida. Assim, modifica toda as hierarquias tradicionais da narrativa, invertendo o princípio da causalidade sem nenhum escrúpulo, deleitando-se com detalhes aparentemente ínfimos, com suas meditações à Sterne sobre um par de botas, uma borboleta preta, as moscas e a ponta do nariz.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


O objetivo deste artigo não foi o de esgotar o texto machadiano, apenas contribuir para o estudo crítico de uma obra rica, complexa e extremamente moderna.


Machado de Assis não é um inventor, porque utiliza-se de recursos herdados de toda uma tradição de autores ocidentais, mas é sem dúvida o precursor nas letras brasileiras de artifícios discursivos que o igualam na categoria dos mais representativos escritores da literatura universal.


A metaenunciação comparece em toda a segunda fase da obra machadiana, configurando-se como um moderno tratamento da trama romanesca. Autores como Günter Presler dizem que Machado se antecipou a Joyce no uso do discurso indireto livre, comprovando a maestria e genialidade do bruxo do Cosme velho.









O SERTÃO POLIFÔNICO DE EUCLIDES DA CUNHA


Charles Odevan Xavier





Escrita entre 1897 e 1902, ano em que é publicada, a obra "Os Sertões" surgiu como um desdobramento de artigos feitos sobre a campanha de Canudos pelo autor, encomenda para o Jornal O Estado de São Paulo, quando este foi correspondente de guerra. A obra se divide em três partes: "A terra", "O homem" e "A luta".


A TERRA


Se o percurso gerativo de sentido é esburacado, na metáfora genial de Pierre Lévy ("O que o Virtual"), não menos íngreme é a trilha aberta para o leitor por Euclides da Cunha nos "Sertões".





A obra começa difícil e arenosa. O vigor do universo euclidiano nos faz pensar em outro escritor pré-modernista: Augusto dos Anjos. Enquanto o poeta paraibano elegeu a Química e a Biologia como musas, o jornalista carioca vai buscar na Geologia e na Antropologia as fontes inspiradoras. Em "A Terra", Euclides da Cunha lança o leitor no solo granítico do agreste baiano. O percurso euclidiano é duro e acidentado, em que toneladas de termos técnicos, tal qual os pedregulhos, tornam a leitura cansativa e enfadonha. E os "cladódios" sucedem aos "flamívomos" e aos "heliotrópios", exigindo leitores atentos e eruditos dicionários. No entanto, o ensaísta cede lugar ao poeta aqui e ali, em meio a metáforas dignas de um José de Alencar, e as descrições, inicialmente maçantes, vão tornando-se a força do volume, como cactos verdes se insinuando no fundo cinza e ocre da caatinga. Aliás, o caráter fortemente pictórico da obra de Euclides foi bastante explorado por autores como a cearense Maria Inês Sales no seu "Cicatrizes submersas dos Sertões: Euclides da Cunha e Descartes Gadelha em correspondência" (Ed. Cone Sul).





Em "A Terra", vários Euclides se revezam: o geólogo, o topógrafo e o meteorologista que tenta descobrir a gênese das secas e prescreve um remédio, revelando toda a sua formação em Ciências Naturais.





O HOMEM


Na parte denominada "O Homem", outros Euclides se revezam: o etnógrafo, o historiador e o engenheiro enfezado com a arquitetura caótica do arraial de Canudos, a qual ele sentencia como se "tudo aquilo fosse construído, febrilmente, numa noite, por uma multidão de loucos".





Euclides da Cunha constrói o sertanejo entre o seu antipático darwinismo social e a poesia dos seus oxímoros. Daí o sertanejo ser mostrado, simultaneamente, como "sub-raça" e "Hércules " Quasímodo". E é nessa trajetória que percebe-se que, se a Sociologia superou o determinismo evolucionista das primeiras páginas, a Literatura o redimiu.





A tese defendida pelo jornalista é clara e horrorosa: o sertanejo sofre não só pelo ambiente atroz, mas pela mestiçagem de raças que lhe dá um caráter raquítico e tendências cretinas.





O militar argumenta sobre o desnível entre o Norte e o Sul. O clima ameno do Sul e o sangue indo-europeu fizeram o gaúcho: um homem forte e inteligente. A mestiçagem e a aridez do Norte deram no jagunço: um imbecil apático. O renomado sulista, no seu ufanismo, esquece, inclusive, de fenômenos destrutivos como as geadas que arruinam a agricultura dos climas temperados.





O etnografo reveza-se com o historiador e vemos nessa parte, a gênese do habitante da costa brasileira (um misto de ladrões portugueses com nativas tapuias), a origem do jagunço, do feudalismo peculiar da região, da religiosidade sertaneja (mescla de catolicismo medieval com crenças afro-ameríndias) até chegar no perfil de Antônio Conselheiro e de seu Arraial.





Segundo Walnice Nogueira Galvão, Euclides da Cunha revela diversos problemas polifônicos. O Euclides da Cunha abolicionista e republicano, crente ferrenho do progresso, entendido este como uma mistura legítima de luzes com técnica, tem que conciliar o jornalista porta-voz dos oprimidos com o estrategista militar. E é nesse tensionamento de vozes que reside a beleza da obra. A seu ver, Antônio Conselheiro era simultaneamente um grande homem, enquanto líder, porém um degenerado, enquanto encarnação das piores características dos mestiços. Como resolver tal dilema ao nível do discurso? Recorrendo a figura da antítese, em que dois opostos são violentamente aproximados, ou sua forma mais extremada, o oxímoro. Isto é, resolvendo o problema não ao nível do raciocínio, mas ao nível da Literatura. Desse modo, Antônio Conselheiro, diz o autor, era tão extraordinário que cabia igualmente na História como no hospício.





À medida que a obra vai sendo escrita, Euclides relativiza sua crítica e os juízos preconceituosos vão sendo abandonados. Canudos, progressivamente, torna-se o símbolo de uma raça forte, de lutadores incansáveis. "Os Sertões" deve ser lido como uma obra dinâmica, dialética, em que conceitos são rapidamente superados e a escrita se faz maior do que o estreito projeto determinista que marca o livro.





Caso a obra se esgotasse em acusações preconceituosas teria, seguramente, desaparecido, como tantos livros escritos no contexto sobre o tema e calcados pelo mesmo arsenal teórico positivista e evolucionista. Se ficasse restrito a visão segundo a qual a luta das raças é a força motora da história, o Conselheiro, um louco e Canudos, um homizio de bandidos, o livro estaria relegado ao esquecimento.





Nas últimas páginas da obra, Euclides afirma que o sertanejo é a "rocha viva da nacionalidade" e que a dinâmica do genocídio promovida contra Canudos fora expressão do movimento anticivilizatório revelador de crimes que as nações são capazes de praticar contra si mesmas. Assim, Euclides atravessou o longo caminho que vai da superficialidade do esquema, para a grandeza nascida de uma sensibilidade que capta a extensão e a profundidade dos acontecimentos passados às margens do rio Vaza-Barris.





A LUTA





A última parte mostra as várias expedições do Exército contra Canudos e a conseqüente resistência sertaneja. O texto ganha intensidade dramática e se torna uma sucessão de eventos nos quais se misturam a coragem, a violência e a barbárie da guerra, desse modo, a escrita euclidiana assume ares épicos.





Euclides centra sua munição discursiva na quarta expedição, comandada por Artur Oscar. Faz um balanço dos erros táticos cometidos pelos oficiais do exército: problemas de abastecimento, falta de mobilidade e adaptabilidade às condições do terreno, utilização de formas clássicas e convencionais de guerra contra um inimigo que agia segundo estratégias guerrilheiras. É o Euclides estrategista militar falando. Quando o texto se dedica a mostrar as covardes degolações que os militares praticavam contra os sertanejos, revelando que os civilizados de ontem se tornam os bárbaros de hoje: "A degolação era, por isso, infinitamente mais prática, dizia-se nuamente. Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada. Não era a ação severa das leis, era a vingança"... é o jornalista porta-voz dos oprimidos que fala. Quando descreve a resistência final dos conselheiristas em meio a fome, a doença, a jornada guerreira, Euclides revela que o preconceito inicial se transforma em admiração e respeito.





Ler "Os Sertões" é cruzar por uma obra polifônica, como diz Adilson Citelli, em que vários gêneros dialogam, incluindo-se o jornalismo, a poesia, a narrativa ficcional; múltiplas vozes se confrontam: a da cultura costeira e urbana, das filosofias do século XIX, a dos militares e políticos, a da Igreja. Desse modo, várias áreas do conhecimento cruzam o livro, assim como, diferentes tipos de discurso. Assim, o livro é documento enquanto registro de uma época e monumento pela beleza de sua escrita.





Mestrando em Letras pela UFC.











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