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flor futura
Desde: 04/11/2003      Publicadas: 62      Atualização: 12/04/2017

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 Civilização
  01/01/2015
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GUY DEBORD E A ÁFRICA NEGRA
O ensaio flagra a maneira peculiar com que o ativista francês Guy Debord encarava a África negra em 1967.
O texto fala do mundo bipolar da guerra fria, da redemocratização no Brasil e do movimento negro de base reformista em torno do PT, PDT e PCdoB.
GUY DEBORD E A ÁFRICA NEGRA

GUY DEBORD E A ÁFRICA NEGRA

Este ensaio pretende dar conta da relação entre o ativista e cineasta francês Guy Debord e a África subsaariana.
Eu sei que sou lido pelo movimento negro e suponho que para boa parte do movimento negro brasileiro: Guy Debord é um desconhecido.

Falo aqui de militantes negros que foram formados pelo PDT, pelo PT e pelo PCdoB após a chamada redemocratização (Marcos Nobre, 2013). Sendo assim, os militantes negros em torno destes três partidos foram formados numa experiência burguesa e reformista, dentro dos limites da democracia burguesa e capitalista, confirmando-a.

Não era conjeturado por esses partidos e/ou movimentos destruir o capital, mas lutar por sua integração em suas frestas, com reinvindicações contra o racismo, mas não contra o capitalismo.

Assim é pensado em boa parte dessa geração surgida nas comemorações ao centenário da abolição da escravatura em 1988, que ora apresento, talvez, um ilustre desconhecido: Guy Debord.

Este ensaio surge da leitura atenta do livro SOCIEDADE DO ESPETÁCULO, em sua tradução brasileira feita por Estela dos Santos Abreu; lançada pela Editora Contraponto em 9ª reimpressão feita em 2007.

QUEM FOI GUY DEBORD?

Debord participou de uma dissidência do surrealismo, o chamado letrismo. Depois com outros ativistas fundou a Internacional Situacionista.

Confrontou-se com Henri Lefebvre e o grupo Socialisme ou Barbarie.

Foi um dos agitadores do Maio de 1968 francês e o autor do SOCIEDADE DO ESPETÁCULO.
Recuperou certos conceitos marxianos e Lukács.

No livro A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO, produto de um homem que não fez faculdade e hoje é estudado na pós-graduação, Debord faz um rigoroso inventário do movimento operário ocidental. E ao fazer isso critica bakuninstas, leninistas, maoístas, stalinistas, trotskistas, bolcheviques.

Solta farpas contra a burocracia soviética e o partido comunista russo. No seu entender inspirador do fascismo italiano e do nazismo alemão.

COMO DEBORD ENCARA A ÁFRICA NEGRA?

Este ensaio não pretende substituir a leitura do livro SOCIEDADE DO ESPETÁCULO, mas ser um convite a percorrê-lo.
Metodologicamente Debord refere-se à África negra em dois momentos do livro. De forma implícita na tese 57(pág.38) e de forma explícita na tese 113(pp. 79, 80 e 810)

Para não fragmentar o pensamento debordiano irei fazer uma longa transcrição do que tem no livro e na medida do possível comentar esses trechos.

TESE 57 E TESE 113

Na tese 57 Debord escreveu: "A sociedade portadora do espetáculo não domina as regiões subdesenvolvidas apenas pela hegemonia econômica. Domina-as como sociedade do espetáculo. Nos lugares onde a base material ainda está ausente, em cada continente, a sociedade moderna já invadiu espetacularmente a superfície social".

Como eu interpreto esse excerto? No meu entender o que Debord chamava de ausência de base material em 1967 (ano da publicação do livro) era o fato de que a sociedade industrial não se globalizou pelo planeta Terra da mesma forma. Haveria rincões pré-industriais como a África negra e certos países da Oceania.

Ou seja, a fábrica não chegou num vilarejo de Angola, mas o rádio levado pelas missões cristãs levou a subjetividade capitalista até lá.

TESE 113

A Tese 113 eu resolvi transcrevê-la na íntegra. Vamos a ela.

"A ilusão neoleninista do trotskismo atual, por ser a todo momento desmentida pela realidade da sociedade capitalista moderna, tanto burguesa quanto burocrática, encontra um campo natural de aplicação privilegiado nos países "subdesenvolvidos" formalmente independentes. Neles, a ilusão de uma variante qualquer de socialismo estatal e burocrático é conscientemente manipulada pelas classes dirigentes locais como a ideologia do desenvolvimento econômico. A composição híbrida dessas classes se liga de modo mais ou menos nítido a uma gradação no espectro burguesia-burocracia. Ao jogar em escala internacional com os dois polos do poder capitalista existente e com seus compromissos ideológicos " sobretudo com o islamismo " que expressam a identidade híbrida de sua base social, essas classes acabam por retirar desse último subproduto do socialismo ideológico qualquer aspecto sério que não seja policial. Uma burocracia pode ser formada ao enquadrar a luta nacional e a revolta agrária dos camponeses: sua tendência então como na China, é aplicar o modelo stalinista de industrialização a uma sociedade menos desenvolvida que a da Rússia de 1917. Uma burocracia capaz de industrializar a nação pode formar-se a partir da pequena-burguesia dos quadros do Exército que tomam o poder, como mostra o exemplo do Egito. (grifo nosso). Em certos lugares, como na Argélia ao sair da guerra de independência, a burocracia, que se constituiu como direção paraestatal durante a luta, busca o ponto de equilíbrio de um compromisso para fundir-se com uma fraca burguesia nacional. Enfim, nas antigas colônias da África negra que continuam abertamente ligadas à burguesia ocidental, americana e europeia, uma burguesia se constitui " quase sempre a partir da força dos chefes tradicionais do tribalismo " para possuir o Estado: nesses países em que o imperialismo estrangeiro continua sendo o verdadeiro senhor da economia, chegou-se a um estágio em que os compradores receberam, em compensação por sua venda de produtos indígenas, a propriedade de um Estado indígena, independente diante das massas locais mas não diante do imperialismo. Nesse caso trata-se de uma burguesia artificial que não é capaz de acumular, mas que simplesmente dilapida, tanto a parte de mais-valia do trabalho local que lhe cabe quanto os subsídios estrangeiros outorgados pelos Estados ou monopólios que são seus protetores. (grifo nosso).

É interessante transcrever o encerramento da tese: "Mas o próprio sucesso de uma burocracia no seu projeto fundamental de industrialização contem necessariamente a perspectiva de seu fracasso histórico: ao acumular capital, ela acumula proletariado, e cria seu próprio desmentido, num país em que ela ainda não existia."
Como podemos interpretar o pensamento debordiano? Para o ativista francês o contexto da época (1967) refletia um mundo aparentemente bipolar. As duas classes poderosas da época eram a burguesia e a burocracia dos partidos comunistas do leste.

Debord nas passagens grifadas fala de uma elite africana que vende matérias primas para o imperialismo estrangeiro branco e que em troca recebe postos de comando na burocracia estatal africana. É uma burguesia artificial, porque segundo o próprio Debord, para existir burguesia tem que existir acumulação e isso só é possível num contexto de intensa industrialização. É uma burguesia que dilapida e expropria a mais-valia dos trabalhadores africanos localizados no extrativismo agrícola e no setor de serviço.




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